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Doze giros

Por Erismar Gomes (15/03/2026)

Della Torre

Eram aproximadamente 20 horas de uma terça-feira de maio de 1983. Neste momento, adentro no Colégio São Judas Tadeu, localizado no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Sigo direto para a então sede da Federação Paulista de Futebol de Mesa, buscando me tornar um botonista federado. Encontro uma salinha de 2x2 metros, duas cadeiras na entrada, uma mesa de escritório com uma máquina de escrever e, sentado atrás da mesa, vejo um senhor alto, que me recebe com sorriso no rosto. Era o presidente, à época, da entidade. A coluna de hoje, caros leitores, é uma homenagem a este verdadeiro baluarte do futebol de mesa, não só paulista, mas do futebol de mesa nacional. Infelizmente, já não está mais entre nós, mas deixou um enorme legado. Estou me referindo a Antonio Maria Della Torre, ou simplesmente Della Torre, como era conhecido por todo nosso meio, de norte a sul do Brasil.

Natural de Casa Branca, cidade no interior do estado de São Paulo, Della Torre nascera em 10 de maio de 1942 e, desde garoto, foi um apaixonado por jogar botão. Fazia seus times usando botões de casacos, tampas de recipientes de cremes e pomadas da época, tampas de relógios etc., gerando grandes "esquadões" para a disputa dos campeonatos com seus amigos de bairro e escola. Anos 60, vindo para a capital, Della Torre foi trabalhar na C Itoh, empresa japonesa fabricante de calculadoras.

Nesta época, fez curso de árbitro de futebol, tendo atuado de 1965 a 1968, quando deixou a carreira de árbitro, incompatível com seu momento profissional. Nessa época, até sua paixão em jogar botão ficou adormecida, voltando a despertar em 1979, quando começou a ensinar seus filhos e seus sobrinhos a prática do esporte. Pouco tempo depois, conheceu Geraldo Dècourt e daí nasceu uma amizade inseparável. Há quem diga que Della Torre foi o melhor amigo de Dècourt. Jogaram juntos no Riachuelo Clube, de São Paulo. Junto com outros dois amigos, fundaram o Botonice, outro clube para a prática do futebol de mesa.

Em 1982, Della Torre ajudou a refundar a Federação Paulista de Futebol de Mesa, que estava com as suas atividades paralisadas desde 1970. A partir daí, não só entrou de cabeça no esporte como trabalhou incansavelmente pelo seu desenvolvimento. Nesta época, já era um executivo na C Itoh e, em uma de suas constantes viagens ao Japão, trouxe ao Brasil uma placa de celuloide que nunca tinha sido vista por aqui. Levou a placa para o artesão Lourival Lima — o pioneiro na fabricação de botões — e chegaram à conclusão de que o material daria ótimas palhetas. Devido ao seu desenho característico, que se assemelhava a um casco de tartaruga, nasceu então a tão famosa e cobiçada palheta tartaruga, que foi um material abundante enquanto Della Torre importava direto do Japão tais placas de celuloide.

Em 1983, assumiu a presidência da Federação Paulista de Futebol de Mesa por dois anos e, no final deste ano, sua gestão concedeu ao Sr. Geraldo Dècourt, o título de Patriarca do Futebol de Mesa. Della Torre teve ainda outros dois mandatos (1989/1990 - 1999/2000), e nesse período foi, diversas vezes, vice-presidente, diretor administrativo etc. Estava sempre trabalhando em prol do esporte. No ano de 1984, monta uma equipe de "notáveis botonistas" para a criação da regra 12 Toques, sendo Della Torre seu redator. Trabalhou para a viabilização de um sonho: o primeiro Campeonato Brasileiro de Futebol de Mesa, que foi realizado no Clube Atlético Indiano, em 1989. Enérgico e amante da disciplina no futebol de mesa, era amigo literalmente de todos os botonistas e ajudou muitos. Ao mesmo tempo, era um conciliador de conflitos, e no período em que havia juízes nas partidas dos campeonatos, Della Torre era considerado o melhor árbitro de todos. Sua presença já impunha respeito por si só, tamanha a dedicação e seriedade que tinha ao "apitar" uma partida.

Também foi fabricante de mesas e também começou a fabricar bolinhas nos anos 1990, por pura necessidade do esporte, visto que o fabricante da época não as faria mais. Alguns anos depois, desgostoso com as críticas muitas vezes perversas, daqueles que hoje chamaríamos de haters, abriu mão da atividade e passou seu conhecimento ao Lorival Lima que, daí para frente, seria o fornecedor das bolinhas.

Della Torre, além do futebol de mesa, era apaixonado pelo Palmeiras e pelas seleções brasileiras, não importando o esporte. Nas partidas de vôlei, basquete, futebol, fosse nos Jogos Olímpicos ou outra competição, onde havia brasileiros defendendo as cores nacionais, lá estava ele torcendo pelo nosso país. Infelizmente, seu coração não aguentou a emoção do jogo da seleção brasileira de basquete feminino nas Olimpíadas de Sidney. Faltando um minuto para o final, as russas passaram à frente com 67 a 66.

O Brasil teve todo um ataque para trabalhar a bola e não se precipitou, uma jogadora brasileira (Alessandra) invadiu o garrafão e arremessou. A bola não caiu, mas ela recuperou e fez no rebote. O cronômetro marcava 1,4 segundos para o final. As russas ainda tiveram uma bola no ataque, mas não tiveram tempo para arriscar. A vitória dramática contra a poderosa Rússia, no dia 27/09/2000, classificou o Brasil para a disputa do bronze, mas nosso amigo e base de nosso esporte sucumbiu à tamanha emoção e veio a falecer. Uma perda imensurável.

Enfim, um nome que jamais pode ser esquecido e este é o objetivo desta crônica, nessa singela homenagem ao grande Della Torre, pois sem ele, sem nenhuma sombra de dúvida, não estaríamos até hoje praticando nosso amado esporte. Aos que o conheceram, grandes lembranças e já sabiam disso; aos que não o conheceram, agora sabem.

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O corretor de seguros Erismar Ferreira Gomes, é paulista, torcedor do Santos F.C. um apaixonado pelo futebol de mesa e no video-game. No botonismo tem um rastro indelével tanto no espectro da gestão (tendo sido diretor de departamentos em clubes importantes como Corinthians e Maria Zélia) e presidente da Federação Paulista; quanto na qualidade de atleta - onde ostenta inúmeros títulos, incluindo um bicampeonato Brasileiro por equipes e o título Brasileiro individual em 2005 (ambos na categoria másters). Erismar é uma testemunha privilegiada da história e evolução da regra 12 toques pois não apenas a viu nascer mas participou ativamente da sua história. 

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erismar@mundobotonista.com.br

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