Painel do Mundo
Por Sergio Travassos (10/03/2025)
A lágrima é algo tão simples. Apenas gotas salgadinhas que são vertidas pelos olhos. Geralmente pensamos nelas como o símbolo cabal de uma situação triste. Tal qual quando, no último minuto, ao invés de deixar o seu botão na pequena área, você puxa-o, automaticamente, para fora e o adversário utiliza o seu botão para conquistar o título nacional. Já vi um querido botonista cometer tal “erro”. As lágrimas doloridas dele, quase me fizeram chorar também.
No entanto, há lágrimas falsas, teatrais, interesseiras. Dessas não quero nem escrever. Há as de realização – nossas ou de outros. Essas são belíssimas e alegres. Existem as lágrimas pueris, como quando um colega acerta uma bola que ele não acreditava ser possível e, justamente, em uma decisão. As de saudade, como quando nos afastamos das mesas, por exemplo. Também as de não sei nem por quê. Do nada.
Enfim, elas podem ou não deslizar nas nossas bochechas e, ainda assim, são lágrimas. Sim, há lágrimas que debruçam-se na varanda dos nossos olhos e, contemplativas, ficam lá, como em silêncio. Serenam-se e retornam.
As lágrimas que não caem são as mais difíceis. Intrigantes. Exigem muito de nós. Talvez, elas caiam para dentro, inundando o nosso ser. Destruindo tudo por dentro. Como ninguém as vê, não sabem o que passa naquela cabecinha inundada, não por lágrimas salgadas mas por amargura. Ninguém enxerga, ninguém entende. Só quem chora – para fora e, mais ainda, para dentro, sabe o que sente.
Poucos terão empatia para o nosso sonho não realizado. Aquele sonho que leva-nos à lona. Em que uma decisão errada tudo desmorona. Imagine que, no último minuto de uma partida classificatória e você vai dar um tapinha para esconder a bola e o campo desvia o seu botão para cometer uma penalidade. Que frustração. A eliminação vir de algo externo e a lágrima contida.
Recentemente chorei. E chorei muito. Não pelo erro, por uma decisão perdida, mas por não ter conseguido participar do maior Campeonato Brasileiro de todos os tempos, o realizado em Salvador, no final do ano passado. Por ter sido na meca da regra 1 Toque, por si só já bastaria. Mas foi além. Algo que desde quando era o jovem que leu aquela revista Placar nos idos de 87, imaginava. Era um sonho de criança. Ainda mais com a correta decisão da diretiva de abrir o máximo de vagas possível, tornando a competição a maior e mais difícil. Conquistada pelo excelente botonista gaúcho Bauer, o torneio frustrou a todos que sonhavam estar presentes mas, por algum motivo, não conseguiram. Eu, um deles.
A dor e raiva por não estar presente foi tanta que, sequer, assisti aos jogos. Pior, afastei-me das mesas por um longo tempo. Somente no finalzinho de novembro é que as “águas imaginárias” baixaram e pude iniciar a recuperação desse choro não chorado. Quase um luto.
Quanto a mim, o vácuo só tem sido preenchido pelas lágrimas silenciosas. Mas há lágrimas que, após destruir, acabam por nutrir algo se tivermos uma fleuma para enfrentar os desafios. Estou tentando juntar os “caquinhos” e recomeçar o meu caminho nas competições, mesmo sabendo que será difícil. O Brasileiro de Salvador, não terei mais como desfrutar. Findou-se. No entanto, um dia, quem sabe, jogo alguma competição na terra mais frutífera de grandes botonistas da 1 Toque no Brasil. Isso me dá esperança a continuar.
Sergio Travassos é diretor do Santa Cruz F.C. há doze anos, jornalista com outras duas formações, Educação Física e Marketing, que atua há muito tempo em prol do desporto pernambucano. Tendo passagens pela Federação Pernambucana e CBFM. Sendo uma das figuras que mais defende o jogo de futebol de mesa, independente da regra de atuação, bem como que as competições sejam feitas em locais públicos, visando atrair mais visibilidade para o futmesa.
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