Painel do Mundo
Por José Carlos Cavalheiro (4/11/2026)
O futebol de mesa na Colômbia

É complexo escrever sobre algo que, efetivamente, não existe de forma organizada. Aproveito a dificuldade e conto aqui minhas experiências de tentar trazer o esporte ou, ao menos, o jogo para um país que não tem a mínima ideia sobre a sua existência e onde a colônia de brasileiros é pequena. Apesar das inúmeras similaridades, temos culturas bastante distintas, com baixíssima interação e um consequente desconhecimento mútuo, devido à existência de poucos pontos fronteiriços, exatamente nas regiões mais desabitadas de ambos os países.
Cheguei à Colômbia em agosto de 2011, depois de cinco anos sem jogar botão com a frequência desejada. Uma das minhas primeiras constatações foi que, da mesma maneira que os brasileiros, os colombianos são apaixonados pelo futebol e admiradores do nosso "jogo bonito". Desta maneira, pensei que o futebol de botão seria um grande atrativo para os locais e, talvez, uma fonte de ingressos para mim. A primeira tentativa se deu por meio do contato com uma pessoa que queria reativar o Subbuteo em Bogotá, cidade onde resido. Nós nos encontramos e cada um apresentou o seu jogo ao outro. A falta de interesse foi recíproca.
Posteriormente, entrei em contato com o Instituto Cultural Brasil-Colômbia (IBRACO) sobre a possibilidade de mostrar o jogo nas dependências dessa instituição dedicada, principalmente, ao ensino da língua portuguesa praticada no Brasil. Solicitaram que eu enviasse uma proposta em um projeto, coisa que imediatamente providenciei. Até hoje estou esperando, ao menos, uma resposta negativa.
Trabalhei durante quatro anos (2014 a 2018) na Embaixada do Brasil. Aproveitando o fato de estar em contato diário com os diplomatas, sugeri que o jogo fosse exibido na Festa Nacional ou mesmo na Feira do Livro de Bogotá, onde o Brasil está sempre presente com um estande bastante amplo. Nunca houve o mínimo interesse por parte dos responsáveis pelo Setor Cultural da nossa representação diplomática. O interessante é que, nessa tentativa, me faltou um pouco de sorte. Pouco depois da minha contratação, vim a saber que um diplomata havia sido transferido para um outro posto no exterior e que ele se tratava, exatamente, de João Ernesto Chirstófolo, o primeiro campeão brasileiro Sub-15 da regra 12 Toques, no longínquo ano de 1991. Ele se queixava com seus colegas de que não tinha com quem jogar. Desafortunadamente, nossos tempos não se casaram.
Ainda nessa época da embaixada, descobri que um rapaz chamado Alejandro González queria comercializar um jogo bastante similar ao nosso. O campo de jogo era um vidro sobre um campo de futebol impresso em papel. Os jogadores eram botões de roupa e a bola era um botão ainda menor. Ele estava copiando algo que já existia há muitos anos na Argentina. Alejandro expunha seu jogo em um shopping em um município localizado logo após o extremo sul da cidade, e eu resido no extremo norte. Nunca me motivei a enfrentar uma viagem de ida de 90 minutos em ônibus para estabelecer um contato pessoal. Algum tempo depois ele me telefonou pedindo que eu trouxesse do Brasil botões do tipo "panelinha". Próximo a uma viagem, entrei em contato com ele, mas Alejandro havia sofrido um acidente e desistiu do projeto.

Por meio de um amigo, o vice-cônsul da embaixada, conheci, em 2015, um colombiano, casado com uma brasileira, que viveu em Brasília e lá conheceu o futebol de botão. Guillermo Barriga, que, apesar do sobrenome, é magro, trouxe consigo uma considerável coleção de botões, vários dadinhos e uma mesa diminuta. Ele me convidou para ir à sua casa e jogamos cinco partidas, com seus times, em uma regra que ele mesmo inventou: cinco movimentações por jogador, sendo que não era necessário o botão tocar no dadinho. Venci quatro e ele uma. A revanche foi na minha casa. Não lembro quantas partidas jogamos na regra 12 Toques com os meus botões oficiais. Sei que ganhei todas e ficamos ambos desanimados: ele por perder e eu por ganhar sem me esforçar. Confesso que me faltou um pouco de inteligência emocional para facilitar as coisas para o meu adversário e provável futuro parceiro.

No início de 2019, pensei em comercializar o jogo infantil. Busquei uma empresa de injeção de plástico, mas o valor que queriam pelo molde inviabilizaria o negócio. Eu teria que vender uma enorme quantidade de times para amortizar o valor do molde para, somente depois, ter um lucro baixo, o que, convenhamos, seria extremamente complexo em um país que não tem a cultura do futebol de botão.
Ainda em 2019, a Copa América de Futebol iria acontecer na Colômbia. Aproveitando a proximidade do evento, procurei a gerente de marketing de um shopping muito próximo da minha residência. Mostrei para ela o que era o futebol de mesa 12 Toques, os times vitrine do Brasil, Argentina e da Colômbia que tenho, e fiz a proposta de fazer uma exibição de duas semanas, sem custo para ambas as partes. Ela aceitou, mas, como todos sabem, veio a pandemia de COVID-19, o lockdown e o cancelamento da competição no país, visto que a emergência sanitária foi tratada por aqui com muita seriedade.
Em 2023, no prédio onde residi até janeiro deste ano, organizaram uma feira de empreendimento. Sem já nenhuma intenção de faturar com o futebol de mesa, tirei do meu depósito a mesa oficial que me acompanha desde que saí do Brasil em 2007, meus botões mais bonitos, e deixei à mostra. Apenas três pessoas se aproximaram: um vizinho chamado Germán, uma menina de 12 anos e o síndico, aqui chamado de administrador, que era contratado por uma empresa. Este último alucinou com o jogo. Esqueceu de tudo que tinha que fazer e ficou jogando comigo, mostrando um vivo interesse pelo futebol de mesa. Pouco tempo depois a empresa o substitui por outra pessoa.
Em maio deste ano, comecei a trabalhar em um colégio que tem a língua portuguesa — vertente brasileira — como diferencial, com a função de fazer uma plataforma online para que funcionários, professores e alunos aprendam o nosso idioma, além de atualizar as diferentes páginas da organização. Ofereci minha mesa, duas balizas, dois times, algumas palhetas e algumas bolinhas de feltro como uma forma de reforçar a proposta de multiculturalismo oferecida pelo colégio. O dono do estabelecimento abraçou a ideia e já encomendou duas mesas a um carpinteiro local. Primeiramente, o futebol de mesa foi oferecido aos alunos e teve boa aceitação. A meta agora é atrair a comunidade brasileira em Bogotá para praticar o jogo e, posteriormente, apresentá-lo aos pais e aos alunos de uma escolinha de futebol que há dentro da instituição de ensino. Já temos alguns botões de plástico que foram generosamente oferecidos pelo Sr. Fernando Cruz, de Nova Friburgo. Vamos ver se agora vai...
Aproveito esta ocasião para me despedir da coluna "É tudo botão" na qual me dediquei por seis anos à descoberta de outros países que praticam o nosso esporte pelo mundo. Espero ter contribuído para o enriquecimento dessa comunidade e dos leitores com os quais interagi ao longo dessas prazerosas temporadas. Deixo o bastão sobre a mesa, caso alguém se interesse em dar continuidade à missão. Viva o futebol de mesa onde quer que ele brote.
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Formado em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, José Carlos Marques Cavalheiro, nasceu na capital carioca no ano de 1962. Foi atleta de futebol de mesa na regra12 Toques de 1998 a 2005, quando foi viver em diferentes lugares: São Paulo, Paris, Jundiaí e Bogotá, onde atualmente reside. É o responsável pelo site da FEFUMERJ desde dezembro de 2004. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Comunicação da entidade.
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