Painel do Mundo
Por João Paulo Leal (06/06/2026)
A Copa do Mundo do quintal de casa
O Sonho do penta e o eco das palhetas no Engenho de Dentro

O sol de junho de 1998 caía suave sobre a Rua Ana Leonídia, no Engenho de Dentro, mas dentro da garagem do casarão antigo o clima era de decisão. Sobre o cavalete, o campo de aglomerado — com o verde gasto pelo tempo — era o nosso solo sagrado. Ali, o mundo não era dos gigantes em Paris, mas dos botões de acrílico que brilhavam sob a luz de uma lâmpada solitária, enquanto a TV de 14 polegadas ao fundo mostrava as imagens tensas que vinham da França.
Éramos seis amigos vivendo o auge daquela febre: João, Zé, Wilson, Thiago, Junior e Marcelo. Cada um com sua palheta da sorte e um frasco de lustra-móveis, garantindo que o acrílico deslizasse como se estivesse no gramado do Stade de France. Naquele subúrbio carioca, a Copa do Mundo não era apenas um torneio; era a mística que transformava seis garotos em estrategistas de uma guerra de toques precisos.
Após semanas de eliminatórias regadas a refresco e pão com mortadela, o destino foi poético. A final do nosso torneio espelhava a grande decisão: João, com seu Brasil de escudos impecáveis, enfrentava a França de Thiago. O silêncio na garagem era absoluto, quebrado apenas pelo estalo seco do acrílico batendo na bolinha de feltro e pela voz de Galvão Bueno, que na TV narrava com apreensão o domínio francês sobre a seleção de Zagallo.
Enquanto na tela o Brasil sofria e a França caminhava para o 3 a 0 avassalador, na garagem a história era outra. O jogo de botão era uma batalha de nervos, um 0 a 0 arrastado onde as defesas pareciam intransponíveis. Os botões franceses de Thiago, azuis e pesados, fechavam a entrada da área, mas João não desistia. No último minuto, em uma jogada ensaiada de lateral, o botão amarelo de João desferiu o golpe fatal. O estalo foi seco. A bolinha de feltro dormiu no fundo da rede. Um a zero.
O grito de "É Campeão!" de João explodiu na garagem no exato momento em que o apito final soava na França. Houve um nó na garganta de todos: na televisão, Galvão Bueno lamentava a perda do título, mas ali, no micro-universo do Engenho de Dentro, João levantava o troféu de plástico. A alegria do menino contrastava com a tristeza do país que esperava pelo grito de "É Penta".
Naquele momento, o suor e a euforia de João consagravam a tarde. Mesmo com a derrota real no Stade de France, na rua Ana Leonídia o Brasil era soberano. Não éramos apenas meninos jogando botão; éramos a própria resistência do futebol, mantendo vivo o sonho do mundo na pureza de uma garagem suburbana.
João Paulo Leal, carioca de 36 anos e vascaíno de coração, reside em Goiânia, onde construiu uma trajetória marcada pelo equilíbrio entre o Direito, a literatura e o esporte. Advogado, é pós-graduado em Direito Público e Psicologia Jurídica, atuando nas áreas previdenciária e pública, com dedicação à promoção da justiça social. Apaixonado pelo futebol de botão desde a infância, nos anos 1990, influenciado pelo irmão mais velho, mantém viva essa paixão como praticante das regras 12 Toques e Dadinho. Nas horas vagas, expressa sua sensibilidade através da escrita, dedicando-se à criação de poemas e artigos literários, nos quais reflete sobre a alma humana e as experiências do cotidiano.
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