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MUNDO BOTONISTA
Tá no filó

Por Giovanni Nobile (07/06/2026)

É tempo de Copa

Mas que tempo é esse? Nossa relação com o tempo é marcada por formas diferentes de perceber a vida. Essas formas, ainda que tenham diferenças profundas, nem sempre são maneiras conscientes de ajustarmos nosso modo de viver. Explicando melhor o que quero dizer, a mitologia grega traz, por exemplo, o olhar distinto entre Cronos e Kairós. Enquanto Cronos representaria essa dimensão linear, fácil de medir, que nada mais é do que o tic-tac implacável da existência, o Kairós seria a experiência de quase fuga dessas engrenagens mecânicas e esmagadoras de um relógio, fazendo com que a gente seja capaz de capturar o tempo, a vida, independentemente do tic-tac, que segue lá, tiquetaqueando. Ainda que esse confronto de visões não seja só um debate mitológico e filosófico antigo, o que temos é, talvez, aí, um grande tema de tensão existencial da vida atual, mesmo. A questão é se estamos, no final das contas, “gastando” nossos dias rolando um feed, vendo jogos de futebol com um olho na tela e outro na rede social, ou realmente vivendo os instantes que dão significado à vida, torcendo com presença, degustando cada momento.

É tempo de Copa. E uma reflexão possível quanto a isso é: que tipo de tempo é esse que queremos passar? Um tempo de Cronos, com o calendário avançando, o dia do jogo chegando, os noventa minutos com a bola rolando e o resultado cru e frio, seja qual for, ou um tempo de significado de vida, imensurável, que nos morde e crava suas garras em nossas memórias com significado, com sabor, com harmonia, causando arrepios e com o calor de uma memória boa? Ultimamente, confesso que tenho visto alguns jogos da seleção no tempo de Cronos. E acho que talvez seja esse um dos impeditivos de uma melhor experiência com nossa seleção. Os jogadores são bons. Tem muita jogada de craque, sim, rolando. Tudo bem, tudo bem... Saudosistas (e me coloco muito nessa posição) dirão que, com essa seleção de hoje, quando não sabemos direito ainda nem quem são os onze que entram em campo (talvez culpa nossa mesmo, que não estamos prestando atenção no tempo presente, vendo essa seleção com um olho no passado e outro nas redes sociais, zapeando por outros temas enquanto o jogo acontece), com um distanciamento gelado entre os milionários que correm em campo da paixão das arquibancadas, não dá... Aliás, que paixão é essa das arquibancadas num torneio em milhares de dólares, com questões geopolíticas absurdas como contexto? Tudo bem, reflexão importante. Mas o que nos resta, para curtir a Copa, a vida e os momentos bons, é abstrair e conseguir atribuir significado aos acontecimentos.

Aqui, então, o apelo do cronista é que esqueçam, por alguns instantes, de Cronos e escalem Kairós. Sai o cronista, entra o kairósista Talvez seja isso. Ironicamente, o termo "cronista", vindo de "Cronos", acaba gerando resultados que buscam o contrário desse tempo do relógio que escorre como o curso imparável de um rio que sabe que seu destino é o mar. Kairós é quem entra em campo nas linhas tortas de todo cronista que busca capturar instantes triviais para lhes dar o sopro de um desejo de eternidade. Então, vamos lá?

Quando lembro de jogos de Copa, lembro de festa, de preparação, das cores tomando as cidades, da expectativa pelos jogos. Lembro, também, de como eu arrumava meus times de futebol de botão, num campeonato imaginário e paralelo que era a minha própria Copa do Mundo. Que apaixonado por futebol nos anos 1970, 1980, 1990, por exemplo, nunca escalou sua própria seleção? Na minha, tinha Pelé, Tostão e Garrincha, tinha Tafarel, Dunga, Romário e Bebeto, tinha Roberto Carlos, Cafu, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo... E vai ter Endrick, Igor, Marquinhos, Vinicius Jr., sim!

Semana passada, por exemplo, levei minha filha de 7 anos para uma experiência de pintar a rua com os temas da Copa. Uma organização com o artista Gurulino, em Brasília. Não contei, mas com certeza estávamos em mais de cem famílias ali, com mãos cheias de tinta e alegria, pintando mais de 300 metros de uma calçada às sombras das copas da arborizada Asa Norte, aqui em Brasília. Uma Copa sendo desenhada pela infância de 2026, como se vivia nos anos 1990. E quem sabe com o grito de campeão de Copas como as de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002?

Não é o tempo de Cronos que troca figurinhas nas bancas de jornal e nos recreios pelas escolas no país inteiro. É Kairós que atribui significado, que cria memórias, que faz dessa Copa de 2026 uma Copa especial. Cronos nunca jogaria futebol de botão. Kairós é o único capaz de segurar uma palheta com maestria, tabelar grandes jogadas, gritar “pro gol”, segurar a respiração como quem suspende o tempo e estufar a rede!

Cronos é esse tempo sequencial, quantitativo e rígido, que dita o ritmo do mundo moderno, quase como quem nos devora com instinto destrutivo e inevitável da passagem dos segundos, minutos e anos e décadas e vai e vai e vai... aprisionado em rotinas, prazos e na constante sensação de urgência. É essa lógica da produtividade, do envelhecimento inevitável (será?). Em contrapartida, Kairós representa o tempo qualitativo, existencial. É nele que um cronista que joga futebol de botão se agarra. É livre das amarras do calendário; ele não se mede pela duração, mas pelo impacto e pela profundidade dos acontecimentos. O futebol de botão vive disso, assim como é a crônica. Do imaginário, da conexão humana que torna as jogadas inesquecíveis. Kairós é esse jovem com asas nos pés, que simboliza que a oportunidade deve ser agarrada de frente quando passa, pois, uma vez perdida, não se pode pegá-la por trás. É o tempo da presença plena, onde um único segundo pode carregar o peso de uma eternidade. E, aqui, o botonista sabe que o segundo do pedido “pro gol” é a pura representação disso. O segundo que crava em nós o peso da eternidade.

Ora (ou diria um mineiro, uai!), se o grande desafio da nossa existência não é escolher entre Cronos e Kairós, mas ter a sabedoria de equilibrar ambos, saberemos que é claro que precisamos da estrutura e da ordem de Cronos para organização das coisas em sociedade, do planejamento e por aí vai. Sim, um jogo terá sempre seus noventa minutos e suas prorrogações. Não podemos escapar disso. O tempo, sim, ele passa. Só que uma vida vivida como os pingos que saem da torneira do tempo, obrigatoriamente apenas tendo como destino o triste escoar pelo ralo, é algo muito raso. É preciso cultivar a sensibilidade, saber desacelerar, escalar o tempo de Kairós para entrar em campo e nos permitir vivências autênticas, com significado. 

Enquanto a ansiedade é feita de algoritmos, a arte é feita de algum ritmo diferenciado do atropelo do tempo frenético do relógio. Nessa Copa, Kairós já entrou em campo na minha escalação. É ele o camisa  dez, que sabe cadenciar o jogo. Assim como Sócrates, que, apesar de usar a oito, era a elegância no meio-campo e que, ainda que o tempo só vá de ida, ele tinha a sabedoria para, de calcanhar, enganar o adversário e ser quem ditava o ritmo. É por isso que a seleção de 1982 é mítica, pois jogou como Kairós, parou o tempo, virou significado, memória, a atmosfera da nostalgia de tantos torcedores e que rendeu tantos times de futebol de botão pelo chão de taco das casas nos anos seguintes.

É tempo de Copa. Que belo presente temos em nossas mãos.

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Giovanni Nobile

Giovanni Nobile é jornalista e escritor. Joga futebol de botão e já disputou diversos torneios de futebol de mesa em Londrina e em Brasília. É cronista no portal Mundo Botonista e já publicou os livros A galeria de arte da Fifi (2023) e Enquanto o resto sufoca (2024). É especializado em língua portuguesa e literaturas (Mackenzie) e em gestão cultural e indústria criativa (PUC-Rio). Também é colunista de literatura na Rádio UEL FM, emissora educativa da Universidade Estadual de Londrina, onde se graduou em jornalismo.

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