Painel do Mundo

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MUNDO BOTONISTA

Por Giovanni Nobile (02/04/2022)

O arrepio é o combustível do suspiro.

Quando o ônibus estava a caminho do estádio, técnico e jogadores estavam concentrados, fone nos ouvidos, o som da torcida cantando alto, com a bateria pulsando junto com a arquibancada, que é a alma do futebol: “vos sos la alegria de mi corazón, sabes todo lo que siento, te llevo acá adentro de mi corazón”. O clima não chegava a ser de tensão, mas de puro foco. A atenção do time estava voltada para o momento da estreia, o frio na barriga. O time foi saindo do ônibus. Um por um, jogadores se prepararam, foram para o aquecimento. Plantel pronto, polido. O momento era de alegria e alta expectativa depois de muito, mas muito tempo. Soou o sino. Estava aberta a temporada de 2022 de futebol de mesa. Puro arrepio!


Sim, sim... quando falo dos atletas concentrados, claro que tem aí a fantasia de todo botonista, que imagine seu clube, sua escalação. E é disso que é feito o nosso futebol de botão: um tanto de memória, uma pitada de ficção com Pelés e Garrinchas conduzindo a bola com maestria em pleno 2022 pelas mesas de todo o país, quase que onipresentes pelos times e mesas de todo o país. Ah! Mas além de memória e ficção, é claro que um grande ingrediente é a paixão. E, como apaixonados pelo futebol de mesa, percebemos, claro, que as crônicas de futebol de botão teimam a querer nos levar para o passado. Mas neste início de ano, se existia uma saudade para qualquer botonista, mesmo para aqueles que não se arriscam como cronistas, essa saudade não era a do futebol de botão. Era a saudade do futebol de mesa!


Claro, não vou aqui jogar fora as memórias de nossos times de botão, as histórias daquele meu Bahia de 1988 guardado na caixa, esperando para um jogo contra um misto da Portuguesa de 1996, 1997 e 1998. Meu Vasco de 2000 está ali, guardadinho, é claro, perto do Corinthians de 1995, do Bangu de Castor, daquele América querido fazendo um amistoso festivo contra um Matsubara do norte pioneiro do Paraná. E o que dizer do Fluminense de 1984, do Grêmio copeiro dos anos 1990 e do Galo de Reinaldo, todos ali, guardados na caixinha, perto de um Boca que troquei com um amigo que colecionava apenas times latinos? Esses times todos estão ali, em seus devidos lugares, separados com carinho, com memórias e ficções de um momento em que meus times de futebol de botão fizeram grandes campeonatos no assoalho do quarto. Vi mais Ponte e Guarani ali, no chão, do que na TV. Já vivi mais emoções em alguns jogos de botão do que em enfadonhos jogos do futebol moderno, previsíveis e até mesmo chatos. Aqui, cabem umas palavras de ordem: não ao futebol moderno! Voltando ao foco: sabemos que essa nostalgia toda existe. Memória e ficção convivem e estão muito bem guardadas no peito de todo cronista-botonista.


Mas, no começo desse ano, a saudade não era a do futebol de botão. A saudade maior era a do nosso futebol de mesa. O clima de levar o time a campo, uniformizado, polir cada botão esperando garantir os três pontos, buscar a classificação, passar pelas eliminatórias, fazer gols, buscar resultados, preparar bem a defesa, comemorar títulos da ouro, prata ou bronze. Levar para casa a sensação de que os arrepios do presente é que garantem os suspiros do futuro. Se hoje lembramos com saudosismo apaixonado dos nossos botões no assoalho, é porque eles nos fizeram arrepiar com estratégias, técnicas e muita emoção. E a abertura da temporada do futebol de mesa de 2022 me trouxe uma certeza: o arrepio da reestreia como combustível para uma nostalgia futura. Sabemos que estamos construindo boas memórias. E, com tudo isso, o que vale é a palheta dando seus toques e a bola balançando a rede. O grito de Táááá noooo fiiiii-lóóóóó! Ser saudosista é colecionar sábados de manhã com bons momentos jogando botão. Pro gol!

Giovanni Nobile é jornalista e fundador do Águia Branca Futebol de Mesa (time que nasceu nas quadras de futsal em Santo Antônio da Platina, no Paraná, fez um jogo em 1997, ganhou, e se orgulha de ser o time há mais tempo invicto no mundo - tudo bem que nunca mais jogou, mas essa é outra história). Seu melhor resultado nas mesas foi um vice-campeonato de etapa na série extra da Liga União, cuja medalhinha tem guardada até hoje. Há mais de 10 anos, vive em Brasília. Por aqui, traz crônicas aos domingos sobre o nosso Mundo Botonista.

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nobile@mundobotonista.com.br

(061) 98105-0356

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