Painel do Mundo

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MUNDO BOTONISTA

Por Giovanni Nobile (31/10/2021)

Somos todos Lamartines.

Falei um pouco sobre o nome desta coluna, “Tá no Filó”, no texto de estreia, e sobre como o futebol de botão teve responsabilidade em formar narradores de futebol para o rádio e para a TV, como conhecemos hoje. Com videogames, como serão os narradores de futebol do futuro? Será que lhes faltará a escola do futebol de botão e a emoção que este empresta, com orgulho, ao futebol dos campos?


Acho muito curioso como um jogo que se propõe a simular o futebol, como é o futebol de botão, ganhou, ao longo do tempo, contornos próprios, vida própria e, com isso, se tornou um esporte independente – mesmo que intimamente ligado ao futebol. E, junto dessa curiosidade que a vida própria do futebol de mesa carrega, gosto muito de conhecer histórias sobre times que nasceram nas mesas antes mesmo de existirem nos campos. Ou que passaram a ter mais vida nas mesas do que nos campos, seja por homenagens, referências históricas e por aí vai.


Acredito que o mais conhecido é o Politeama, do compositor, cantor e escritor – e camisa 9 – Chico Buarque. Falamos disso aqui, já, em uma das colunas. Para mim, esse time é emblemático. Ser do Chico, existir antes nas mesas do que no campo, ter hino, ter vida. Essa coisa toda traz uma leveza lúdica e folclórica ao time verde-anil carioca que me fascina. E a letra do hino, então? “Politeama, Politeama, o povo clama por você! Politeama, Politeama, cultiva a fama de não perder! O teu pavilhão tremula sempre de emoção. Ostenta o galardão de clube sempre campeão. Augusto e varonil, o nosso time verde-anil. Nas glórias, nas glórias. Vitórias, vitórias. Na história do meu Brasil.” Não sei vocês, mas acho isso muito sensacional, já que um hino é um poema ou cântico composto para glorificar deuses ou heróis. E nada mais heroico do que os feitos de nossos botões pelas mesas.


E não é que, num dia desses, conversando com Luiz Carlos de Oliveira, das Mesas Olliver, ele me contou sobre seu time, o Formigão F.B., que ele mesmo criou para disputar campeonatos de futebol de mesa?! Uma história muito boa, também.

Imagem: Luiz Carlos Oliveira

Luiz conta que, em 1972, ele foi disputar um torneio de botões com os colegas de trabalho. Na época, todos queriam representar um clube conhecido. Mas aí, para não dar briga, resolveram que teriam que inventar um nome. “Criei o Formigão. Gostei da ideia e utilizo esse time nos botões até hoje, tem até um hino e já foi tema do bolo do meu aniversário de 50 anos”, conta.

Imagem: Luiz Carlos Oliveira

Sobre os feitos em mesa, Luiz conta que “seus atletas” já chegaram a ser comandados por outros técnicos. “Uma vez, emprestei para o Márcio de Souza (que hoje joga pelo Botafogo) um time do Formigão e ele foi campeão municipal”, conta, sobre os feitos do escrete.

Imagem: Luiz Carlos Oliveira

Ah, e sobre o hino, vejam só isso: “Adaptei o hino da cidade de Formiga (MG)”. Aí perguntei se ele tinha relação com a cidade e a resposta foi negativa. Foi só pelo nome do time, mesmo. Vejam o trecho adaptado: “Nascestes protegidos da luz, longe da chuva, dentro do porão...” Luiz explica que o porão era onde ficava sua mesa, na casa de seus pais. Não é maravilhoso, isso? Apreciem a letra do próprio Luiz:

Formigão, Formigão
São os guerreiros na mesas
Formigão, Formigão
Tu és o time do meu coração

Nascestes protegido da Luz
longe da chuva, dentro do porão
Rasgou estradas, num caminho de glórias
Mil histórias de bravura, vão fluindo
Ergue sua bandeira, vermelha e amarela
Com o sangue e sua riqueza imortal
Bola na rede, de letra ou de bico
Armazenando vitórias geniais
Tenho orgulho, do teu nome altaneiro
Formigão, Formigão, Formigão


Formigão Formigão, Formigão
Tu és o time do meu coração

Eu não sei vocês, mas eu acho isso quase que fundamental ao futebol de mesa. Traz leveza ao esporte, recheia os resultados dos jogos com história, com riqueza de detalhes. E é disso que é feita a vida. De detalhes lúdicos enquanto a coisa séria acontece ao redor. Eu mesmo, por exemplo, sou técnico, cartola, torcida, assessor de imprensa e tudo o que mais imaginarem sobre o meu time Águia Branca Futebol de Mesa. No meu caso, é uma adaptação do time Águia Branca Futebol de Salão, time que montei com amigos nos anos 1990, em Santo Antônio da Platina, no Paraná. Jogamos e ganhamos o único jogo em quadra que fizemos, com isso nos orgulhamos de ser o time que está invicto por mais tempo no mundo. Agora, o Águia Branca está se reestruturando para voltar às mesas em 2022, jogando sério, federado, mas também sem perder o folclore e tudo aquilo que move o futebol de botão. Quem sabe ganhe um hino também? Distante de Lamartine Babo, Chico ou Luiz Carlos, mas também narrando os feitos históricos dos meus jogadores. Eles merecem!

Giovanni Nobile é jornalista e fundador do Águia Branca Futebol de Mesa (time que nasceu nas quadras de futsal em Santo Antônio da Platina, no Paraná, fez um jogo em 1997, ganhou, e se orgulha de ser o time há mais tempo invicto no mundo - tudo bem que nunca mais jogou, mas essa é outra história). Seu melhor resultado nas mesas foi um vice-campeonato de etapa na série extra da Liga União, cuja medalhinha tem guardada até hoje. Há mais de 10 anos, vive em Brasília. Por aqui, traz crônicas aos domingos sobre o nosso Mundo Botonista.

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nobile@mundobotonista.com.br

(061) 98105-0356

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